NAS CURVAS DO ROCK (A história nunca contada, nascimento e vida SEBAS ROCK BAR)

09/01/2018

CAPÍTULO VI
PRAIA, SOL E DINHEIRO


O Ano era 1992. Itamar Franco, vice de Collor, tinha assumido o cargo de presidente da república. Seu ministro da fazenda era Fernando Henrique Cardoso. Juntos iriam criar o plano real e acabar com a inflação no Brasil.
A rodovia que liga Itajaí a Balneário Camboriú tem o nome de Oswaldo Reis dá dez km. Eu e Nilza começamos uma nova jornada para o desconhecido. Agora seríamos sócios com Paulo, meu tio, de uma distribuidora de sorvetes da marca Gellato, antiga marca de sorvetes Italiano sediada no Brasil. As pessoas mais antigas vão lembrar do jingles do Corneto. "Dai me um corneto.... muito crocante... é tão cremoso.... é da Gellato, Corneto veio da Itália.... eu amo tanto..... corneto miiiiioooooo"
Toda criança e adulto da época conhecia essa música..
Alugamos uma casa de alvenaria bem na entrada de Balneário, perto do antigo hospital Santa Inês, atual Ruth Cardoso. O mês era início de outubro de 92 e tínhamos poucos dias para ajeitar a loja que alugamos perto da rua central da cidade, essa com o mesmo nome. Para mim tudo era novo e para meu sócio (tio) Paulo também, pois iríamos viver juntos a primeira experiência de venda de picolé na areia de Balneário Camboriú. Doravante vou usar o nome de Camboriú, só estou escrevendo Balneário visto que são duas cidades: Camboriú e balneário de Camboriú. Então só para frisar nossa aventura acontece em Balneário. Quando viemos para Itajaí trouxemos o Julian no Colo e agora para Balneário nosso pequeno Leonardo completava o quarteto.
O Leo tinha nascido no Hospital Marieta Konder em Itajaí. Ficamos muito contentes em ter um filho nessa cidade maravilhosa. Tínhamos um filho peixeiro. O Julian tinha nascido em Curitiba. Não foi fácil para a Nilza nos dois partos. Ela nunca teve dilatação suficiente e foi necessárias uma cesariana para o parto. Lembro que no caso do Julian eu entrava escondido por trás do hospital Santa Brígida e levava sopa ou X-Salada para ela. As outras mães que estavam no quarto exigiam que seus maridos fizessem o mesmo (risos). Logo que o Julian saiu do hospital minha irmã Silvia Sabatke teve sua filha, Gelly. Na verdade foram sete dias de diferença. Fomos visitar ela no mesmo hospital que Julian nasceu. Ali aconteceu o maior susto de minha vida. Dentro do hospital o Julian começou a chorar e perdeu a consciência. Agarrei ele e entrei na sala de cirurgia correndo. Quando cheguei lá dentro ele já tinha acordado. Esses desmaios passaram a ser corriqueiros e cada vez que isso acontecia, eu com a Nilza quase morríamos. Não sei bem quem nos falou, mas nos contaram que se na hora que ele desmaiasse déssemos umas palmadas ele acordaria e nunca mais faria isso. Dito e feito. O caboclinho desmaiou e a Nilza deu as palmadas. O carinha voltou num choro só e até hoje nunca mais desmaiou, (risos). No caso do Leo, a Nilza também teve dificuldades para tê-lo. Fiquei muito preocupado, pois já nessa época o SUS exigia mais partos normais. Depois de dois dias de internamento e a Nilza não aguentando mais, fui até o médico falar com ele. Um tal de Doutor Brasil. Expliquei para ele a situação e ele me disse que teria que esperar o parto normal. Olhei para o rosto dele e falei bem sério! __SE MEU FILHO SAIR EM UM CAIXÃO DAQUI, VAI SAIR MAIS UM CAIXÃO DO LADO...O SEU!!!!
Na hora o cara fez a cirurgia e deu tudo certo. As enfermeiras falaram para Nilza no quarto que foi a melhor costura já feita em uma cirurgia. Às vezes as pessoas só precisam de um incentivo. (risos).
Depois de ajeitada a casa e agasalhada a família, partimos para o lado comercial da coisa, convidei o meu querido irmão João Joao Arildo Sabatkepara me ajudar na empreitada.. Pintamos a sala alugada que ficava entre a Avenida Brasil e a Avenida Atlântica, essa última beira mar. Estávamos a cem metros da praia. Compramos vinte caixas de isopor grande, a maior que uma pessoa podia carregar. Para manter o sorvete congelado usávamos gelo seco, esse dava uma estabilidade de oito horas para o picolé, nesse tempo se o vendedor ambulante cuidasse o picolé não derretia. Os picolés recheados eram mais sensíveis, quanto aos de fruta era mais tranquilo.
Não consigo me lembrar como conseguimos vendedores tão rápido, mas o certo é que abrimos em uma sexta feira dia dez, véspera do dia da crianças que era doze de outubro. No começo tudo era novo. Não tínhamos nem formulário para anotar as cargas, mas enfim soltamos os primeiro vendedores. No final do dia as vendas apareceram. Não tinha sido uma sexta feira ruim, mas quando chegou o sábado e o sol saiu, aquilo virou uma loucura. Soltamos dez vendedores, não dava tempo deles colocarem os pés na areia e já esvaziavam as caixas. Aquilo foi sensacional. As caixas de picolé na época vinham com quarenta unidades. Chegou uma hora que as caixas vazias não cabiam mais na sala. No domingo também foi maravilhoso e na segunda dia doze a venda já não foi tão grande, pois nesse dia os turista retornam para suas cidades. Porém não poderia ser desprezada. Na real tínhamos vendido demais nos outros dias. Mais tarde eu fui descobrir porque vendemos tanto. Como tinhan muitos quiosque na beira mar e nesse ano o prefeito da cidade Leonel Pavan tinha mandado demolir tudo, a praia tinha ficado sem ponto de vendas, tanto de sorvetes como de bebidas.
As temporadas nas praias são muito rápidas. Sempre começam dia vinte e três de dezembro e vão até a terça de carnaval. Se o carnaval for em março gera um prejuízo muito grande para os comerciantes sazonais, pois precisam manter os funcionários até lá e isso onera demais. Faz dobrar os custos. O pior de tudo é quando o sujeito fica na expectativa do carnaval e quando chega a semana do dito, a Globo anuncia chuva. A coisa fica triste parceiro, pois você precisa fazer estoque e se preparar. Se fizer sol não dá conta de vender e se chover perde tudo. Citei a Globo aqui porque o povo acredita mais na mulher do tempo do que em Deus e quando a "lazarenta" erra ferra com milhões de pessoas. Vejam bem: na época não haviam computadores de qualidade e os erros da meteorologia eram muito comuns.
Junto com o sorvete da praia tínhamos herdado também alguns quiosques em frente a uma rede de supermercado chamado HISTÓRIA SUPERMERCADOS da familia Tandri. Esses caras eram uns monstros em Santa Catarina. Seus mercados vendiam muito. O Paulo sempre seguiu esse tipo de gente. Ele adorava a eficiência e tudo o que podia aprender ou melhorar ele copiava. Todo mundo se espelhava nesse grupo, mas quem vê a loja não vê a contabilidade. Como eles tinham acesso a todos os fornecedores mercadistas, impunham um certo monopólio. Devagar foram alugando barracões por todas as cidades e montando estruturas relaxadas sem a mínima condição de concorrer com adversários mais fortes. Mais tarde o grupo passou por muitas dificuldades. Seu fundador, pai de todos, fugiu ou teve um caso com a cantora Paraguaia Perla. A família desabou. Não sei se deram a volta por cima ou não. Não fiquei para ver.
Mas isso aconteceu depois de 1995. Antes disso tinha vendido muito sorvete nos pontos em frente às lojas deles. Eu tinha um opala verde musgo cintilante ano 1978, lindo demais, com cano de escape meio aberto. Lembro que quando saia do centro de Balneário de madrugada, então a mão da avenida Brasil era inversa. Ela ia sentido norte. Eu acelerava com tudo em terceira marcha e tirava o pé do acelerador. Ele fazia um barulho de stock car Vrrrrrrrrrrrrrrrruuuummmm. A Nilza escutava de longe a minha chegada (risos). Com esse Opala eu puxei muito sorvete do depósito de Itajaí para Balneário Camboriú, pois os caminhões de entrega não conseguiam entrar na cidade de tão lotada que ficava. Eu enchia o que dava de sorvete. Só ficava o meu banco e o local da marcha para poder cambiar. O trecho era de oito km. Eu entrava com tudo naquelas ruas lotadas de BMW, Mercedes e outros carros caros. Todo mundo saía da frente, com medo que eu encostasse nos carros deles. Uns dois anos mais tardes depois de trocar os bancos, rodas e fazer a pintura dele, uma pessoa menos afortunada do que eu resolveu levá-lo para si em plena madrugada. Tínhamos ido na praia de nudismo com a Nilza e a noite não tinha faltado inspiração, Quase nos acabamos e com isso o sono foi profundo demais. Nossa funcionária na época chamada Bernadete que nos acordou lá pelas três da manha perguntando do Opala. Saí de cueca e corri por duas quadras. Fui até em vidente para tentar localizar o carro. Aquilo me assombrou por anos. Onde eu andava eu via um Opala verde e parava para ver se não era o meu. Com certeza ele foi desmontado, pois na época eles já tinham mais valor desmontado do que montado. Acredito que hoje vale o mesmo, pois opala é uma raridade.
Graças a meu cunhado Wagner, que me emprestou o seu opala 72 (cor laranja, três marchas no volante sendo a terceira longa), que consegui acabar a temporada. O carro estava com a junta do cabeçote queimada e tinha que parar todo instante para colocar água. Mas foi de muita serventia.
A primeira temporada foi maravilhosa. Ganhamos bastante dinheiro e também muitos vendedores ganharam. Lembro muito bem do Sr João, que chegou em dezembro na distribuidora pedindo uma caixa para vender picolé. Ele parecia um almofadinha com roupa social. Camisa azul clara tipo Psdb, calça social azul escura e sapatos finamente lustrados. Era careca na parte de cima da cabeça, sua pele branca, 1,80 metros, talvez 90 kg e com certeza mais de quarenta e cinco anos.
Eu olhei e falei para ele que não tinha perfil de vendedor. Mesmo assim ele insistiu. Paguei pra ver e enchi a caixa de sorvetes. Ele tirou os sapatos ali mesmo, dobrou as calças até o joelho, arregaçou as mangas da camisa e foi. Menos de uma hora depois voltou com a caixa vazia. Enchi mais duas vezes a caixa de picolé dele naquele dia. Em dinheiro de hoje ele faturou uns R$500,00 no dia. O coitado queimou a testa que ficou em carne viva. Pelo que eu tinha notado, aquele cidadão não tinha nem bagagem. Ele estava ali só com a roupa do corpo. No outro dia bem cedo estava a posto com uma bermuda e uma camiseta nova e a testa branca de protetor solar, já de chinelo de dedos. Seu joão trabalhou a temporada toda e como um lord inglês. Não falou nada de sua vida obscura, sendo sempre muito educado e prestativo. Certo dia, lá por fevereiro, ele apareceu novamente bem vestido e veio se despedir. Disse que já podia voltar para casa com dignidade. Pela pouca conversa que tivemos e o que eu pude captar, ele tinha sido um empresário bem sucedido que tinha quebrado e perdido tudo, até a família. Como um tigre feroz, veio para balneário e demonstrou toda sua garra de empreendedor. Ele virou lenda na areia da praia e por muitos anos os vendedores falavam do executivo que veio até onde trabalhavam os mortais comuns e demonstrou que para vencer basta querer. Nunca mais ouvimos falar do Seu João, mas seu exemplo ecoa em minha cabeça até hoje e com certeza sua determinação faz parte de minha estrutura empresarial.
Também nesse primeiro ano conheci duas figuras que iriam me desafiar para o bem e para o mal. Primeiro foi o Miguel (gringo), um argentino de fala mansa, moreno de uns quarenta anos mais ou menos. Uma raposa à espera de sua presa, sempre procurando um jeito novo de ganhar dinheiro. Ele foi apresentado a mim pelo Paulo, que também não o conhecia. Era uma pessoa agradável de se conversar, mas confesso para vocês que se não fosse a Nilza teríamos perdido muitas coisas para ele. A segunda figura foi o Wagner (Sadan). Era bem na época da guerra do Golfo e ele tinha ou tem um bigode, enrolava uma camiseta na cabeça e pronto...estava aí o Sadan. Ele era uma pessoa muito rápida também, só que ao contrário do gringo era mais inteligente. Essas duas pessoas vão conviver comigo por muitos anos. Com eles vou aprender a conhecer as pessoas rudes, os canalhas, os mentirosos, vou ter uma aula de malandragem. Como vou negociar com eles sempre vou ter um pé atrás; sempre vou tomar cuidado para não ser enganado. Orai e vigiar essa vai ser a minha atitude doravante.

Fim do capitulo VI

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