NAS CURVAS DO ROCK (A história nunca contada, nascimento e vida SEBAS ROCK BAR)

20/12/2017

CAPITULO V
TEMPOS DIFÍCEIS EM Itajaí


O ano era 1989. Deixamos para trás Curitiba e fomos arriscar a vida em Santa Catarina. Conforme escrevi em outro capítulo fui trabalhar com meu tio em um distribuidora de sorvetes nessa cidade. Éramos praticamente dois adolescentes com uma criança no colo. Eu nem tinha acabado direito minha faculdade. Fiquei devendo três matérias do curso de administração na antiga FACE, atual Universidades Positivo. Fiz minha transferência para a Univali em Itajaí. Minha grade curricular não bateu e tive que fazer mais dez matérias para concluir o curso de Bacharel de Administração. Sabíamos que não seria fácil viver longe dos amigos e longe de nossa cidade natal, mas nunca cansei de falar que se nossos ancestrais atravessaram o mar em navios precários para chegar no Brasil, não seria o fim do mundo viver 220 km longe de casa. Volto a dizer que o Brasil vivia um caos nessa época. Tínhamos o perverso Sarney no cargo de presidente. A inflação devorava nossos salários mesmo antes de o recebermos. Na época a inflação passava de 50% ao mês e tinha uma aplicação diária nos bancos chamada overnight, essa corrigia o dinheiro diariamente, evitando que esse desvalorizasse. Bem .. meu tio tinha um gerente financeiro chamado Cubas, esse mesmo atrasava o pagamento dos funcionários e deixava o dinheiro aplicado, com isso já tínhamos uma perda considerável do montante de nossos pagamentos, evidentemente que comentei com meu tio esse fato, foi só uma vez e logo foi corrigido. A alternativa era fazer as compras no supermercado antecipadas com cheque pré-datados para trinta dias, costume frequentes naqueles dias. Eu tinha dó dos mais pobres que não tinham talões de cheques e o pior de tudo não existiam nem cartões de créditos na época. Os poucos créditos oferecidos tinham taxas de juros extremamente abusivos.
Tínhamos alugado nossa casa em Curitiba por um salário mínimo e eu recebia mais dois salários mínimos de meu tio, somando um total de três salário mínimos. Devido à inflação esse dinheiro só dava para as despesas mínimas, mas enfim íamos levando. Viver em Itajaí era muito bom. Aos domingos íamos na praia de Atalaia e Cabeçudas para ver o vai e vem das ondas, sentar em um quiosque de madeira e tomar um delicioso coco verde. Adorava catar mariscos nas pedras de Cabeçuda, também íamos até o farol que ficava na ponta do Rio Itajaíaçu ver a saída dos navios.Era mágico aquelas construções enormes apitando e sumindo no horizonte. Era um trânsito frenético dessas embarcações entrando e saindo a todo momento. Lembro que meu filho Julian morria de medo do apito desses navios que passavam nos fundos de nossa casa. Para curar essa fobia demos um navio em forma de cesta de pascoa para ele. Como de costume acordamos no dia de páscoa e o escutamos nos chamando lá do quarto, entramos e vimos ele de baixo da cama dizendo que tinha um bichão. Demos bastante risadas e falamos que o coelhinho tinha trazido ovos de pascoa dentro do navio. Ele devorou os chocolates e curou sua fobia.Também gostava de pescar bagres no trapiche da empresa de pesca Sul Atlântica, empresa que ficava a beira do gigantesco rio, devido ao descarte das sardinhas não aproveitadas pela indústria pesqueira o local virava um formigueiro de bagres, peixe que os ribeirinhos desdenhavam devido a grande quantidade de pescados mais requintados que passava pelo porto. Outro local maravilhoso era, e ainda é, o mercado de peixes de Itajaí. Como eu era um quebrado na época, ficava ali que nem um cachorro namorando uma máquina de galetos. Tinha camarões, lagostas, tainhas, badejos, linguados etc. A firma que eu trabalhava fazia fundos para um grande alagado formado pela maré alta e se juntando com á água do rio. Após o expediente ficávamos lançando tarrafas buscando algumas tainhotas e corvinas para o jantar. Meu parceiro de pesca era meu amigo e compadre Adir. Era uma briga na hora da divisão. Dividíamos os peixes por tamanho e o maior exemplar ia no par ou impar. Era muita diversão. Com esse compadre também aprontamos algumas. Teve uma vez que devido à guerra do oriente médio foi cancelada a exportação de frangos para lá. A empresa alugou a câmara fria da empresa em que trabalhávamos e na qual o Adir cuidava da parte de estocagem. As câmaras frias ficaram abarrotadas de frango, iguaria muito apreciada pelos pobres da época (risos). Como frango era novidade na época não deu outra. Afanamos duas caixas de penosas, comemos frango a vontade por um mês.
Trabalhar com sorvete era muito bom. Volta e meia derretia um freezer cheio de picolés , tipo não derretia todo, só amolecia, mas perdia a qualidade para a venda. Não dava outra! Devorávamos tudo. Eu, a Nilza e meus compadres Adir e Neuzeli que moravam em baixo de nosso apartamento dentro do pátio da empresa. O Adir foi meu primeiro amigo no litoral. Aos domingos no verão pegávamos dois carrinhos de sorvete e abastecíamos de picolé, passávamos os domingos vendendo na praia, aquele lucro ajudava a melhorar nossos salários e dava um pouco mais de estabilidade. À noite rolava um canastrão entre casais. Dava muito briga. (Risos)
Minha primeira temporada de verão foi em 1990. Aquilo era uma loucura. Não dávamos conta de carregar tanto sorvete (corneto, galak, festino) e transportá-los até os pontos de vendas. Eles eram acomodados ou conservados em freezers nos estabelecimentos comerciais. Esses freezers eram emprestados pela empresa através de contratos de comodato. Como gerente, eu tinha que fazer a nota fiscal à mão e calcular toda a carga por unidade e sabores de picolés. Tinha uma secretária que me ajudava. A Simone falava bem cantadinho como boa Itajaiense que era. Eram pessoas maravilhosas e muito simpáticas. Nesse mesmo ano as esperanças do Brasil iriam piorar com a eleição de Fernando Collor de Mello. O povo tinha acreditado no engodo e entrado em uma fria. A ministra da fazenda Zélia Cardoso e seus parceiros fizeram um plano mirabolante na cozinha do planalto e assim acabaram de afundar o Brasil de uma vez. Lembro que ela confiscou todo dinheiro do povo desde conta corrente até poupança. De pessoa física a pessoa jurídica. Cada conta poderia sacar apenas seiscentos mil cruzados, algo em torno de R$500,00. Dei um cheque no valor que podia sacar para nosso funcionário Tucano. O banco era perto e ele foi a pé. Não é que roubaram o desgraçado na volta. Pelo menos foi o que ele falou. Devagar, a economia iria entrando nos eixos, mas enfim aquele plano deu errado e mais outro deu errado e finalmente arranjaram um motivo e tiraram com um impeachment o dito cujo do presidente.
Todo mês de outubro tinha uma festa paralela à Oktoberfest em Itajaí, chamada de MAREJADA. Eram centenas de ônibus e carros que chegavam à cidade. A nossa empresa ficava a mil metros do pavilhão da festa. Eu e meu compadre Adir vimos uma oportunidade de negócio ali. Por que não abrir um estacionamento no pátio da firma e faturar uns trocados? Falamos com meu tio e tudo certo. A festa durava dezessete dias. Quase morríamos de trabalhar, mas no final compensava.
Como a festa era muito grande nossa empresa era a responsável pela venda de sorvetes nela, meu tio sempre dava um jeito de negociar alguns pontos e o volume de venda era bastante significante. O lucro dessa festa dava fôlego para iniciar a temporada de verão Era uma festa maravilhosa, com shows e variedades artísticas durante dezessete dias. Tudo era mágico. Imaginem que as bancas eram modelos de barcos, tipo um corredor com uma fila de barcos, aliás dois corredores com mais de vinte barcos enfileirados de dez metros cada um. O povo passava no meio olhando o que cada um oferecia. Tinha camarão, cachorro quente, doces portugueses, sardinhas assadas etc. Essas bancas barcos eram doadas para entidade filantrópicas tipo Lions, Rotary, APAE e outras. O resultado financeiro de cada barquinho abastecia por todo um ano muitos asilos e orfanatos. Enfim, prestem atenção nas informações sobre a Marejada que estou passando, pois mais tarde voltaremos a falar dela e de Lions Clube.
Eu morava em cima da empresa e viver onde você trabalha não é nada legal, pois praticamente não havia descanso. Mesmo no domingo no dia de folga lá estava meu Tio logo cedo para dar um espiada nos equipamento e edificar novos negócios. Você era obrigado, mesmo sem ele pedir, a ir fazer a cerimônia. Muitas vezes vou criticar meu Tio aqui, mas tenho um grande orgulho no tremendo profissional que esse cara foi e é. Sempre à frente do tempo em que vive. Tem uma visão crítica de tudo, sempre desconfia e tira água de pedra se for preciso. Como eu, ele também quebrou financeiramente. A coisa foi tão feia que tinha resolvido fugir com a família. A ideia era esquecer os devedores para trás, mas resolveu ficar e lutar. Isso aconteceu antes de minha chegada em Itajaí. Hoje é um dos grandes empresários de Itajaí. Ele sempre foi e é uma pessoa muito influente e dá gosto de escutá-lo falando, sempre cercado de pessoas que querem aprender alguma coisa com ele. Sempre perseguido por parentes atrás de empréstimos e infelizmente sempre a fundos perdidos. Aprendeu com as porradas da vida a ser duro. Aprendeu a dizer não. Aprendeu a buscar e não a pedir. Sempre nos confrontamos e por pouca coisa a discussão ficava feia. Sempre me impus e o desafiei. No começo sempre errado, mas com o tempo fui aprendendo com ele a ser esperto e todo conhecimento que pude pegar peguei. Lembro certa vez que nós tínhamos um técnico que cuidava das manutenção dos freezers de sorvete. Ele ia até os pontos de vendas e fazia a manutenção dos freezers no local ou os trazia para a empresa para fazer o conserto. Esse menino se chamava Antonio. Como era o único técnico, fazia o que queria na empresa. O Paulo com medo de perdê-lo evitava confronto. Certa vez Paulo foi fazer uma viagem e eu pedi para o cidadão dar uma geral em sua oficina. Ele disse não. Na hora liguei para o contador e dei um gancho de três dias. Claro que ele se recusou a assinar. Peguei duas testemunhas e assinamos a suspensão. Dei um outro recado para ele. Se voltasse e repetisse o feito seria justa causa. Quando meu tio voltou de viagem perguntou pelo sujeito e eu relatei o ocorrido. O homem (tio)ficou uma fera. Discutimos bastante e ele se acalmou. Resultado: o técnico voltou do gancho e nunca mais fez pirraças.
Geralmente no inverno não tínhamos muito o que fazer. Era 1991 e o Paulo resolveu fazer um galpão gigantesco de eucalipto para estocar os freezers recolhidos do verão. Ali seriam feitas as devidas revisões e pinturas para poder devolvê-lo para os comércios, tipos panificadoras, quiosque e mercados. Tinha um tal de Zé Grandão vendedor de sorvetes no verão e no inverno metido a construtor. Como a empresa era sazonal, pois só vendia no verão, os funcionários eram aproveitados no inverno para outras tarefas. Metido a construtor assumiu a construção do galpão. Levantou todos os pés direitos, fez toda á armação de eucaliptos e cobriu com chapas de amiantos. O barracão tinha mais ou menos 400 metros quadrados e estava pronto. Ele deu a ideia de colocar pedras de ardósias no chão. Outra ideia estapafúrdia era a de colocar barro no chão e assentar as pedras em cima. A coisa era muito triste. Foram até perto de Rio do SUL tipo 200 km de Itajai buscar as ditas pedras, um trabalho para carregar e descarregar. As pedras eram tipo lajotas de 40x40. O barracão tinha ficado muito feio mesmo, tanto que os jornais de Itajai e a vizinhança protestavam todo dia contra ele, enfim já estava pronto e só faltava colocar as ditas pedras. O Paulo tinha herdado um sitio em Mafra e resolveu pegar o Zé Grandão e alguns funcionários e os levou para reformar o sítio, tipo fazer galinheiros, chiqueiros e pintura da casa. Deixou outros quatros funcionário: eu, Adir meu Compadre e Carlito, irmão da esposa de Paulo, colocando as ditas pedras. Eu evidentemente vistoriando. Sem saber, aquele momento seria um dos mais iluminados de minha vida. Olhando bem no centro da obra vi que os pés direito de eucalipto não estavam em linha reta e indaguei meu compadre o porquê. Ele gritou CORRE.....CORRE!!! Saímos em uma corrida só e em segundos toda a estrutura caiu. Para se ter uma ideia tinha uma betoneira em baixo que virou uma tábua. Por obra do destino salvei a vida de cinco pessoas.
Devagar fui aprendendo a negociar com o Paulo. Aprendi mais coisa do que em cinco anos de faculdade. Ele tinha um costume estranho. Lembra do Cubas, o financeiro que ele tinha na empresa lá no começo da história?? Pois é. Ele pegou mais um supervisor de vendas que tinha, o Mário. Montou uma distribuidora de margarinas com eles. Claro que os dois saíram da empresa e com isso o Paulo conseguiu reestruturar sua área financeira e de vendas que estavam há tempos engessadas. Quanto ao negócio da Margarina deu errado e os sócios foram cantar em outra freguesia. Notei que aquela atitude era um meio de demissão de seus colaboradores que o Paulo utilizava.
Nessa época o Paulo também tinha uma sociedade com um de seus funcionários (Loriberto): três quiosque de sorvete em Balneário de Camboriu. Era um bom negócio e no final cada um ganhou um carro zero. Depois de acabado essa sociedade Loriberto, como era chamado, foi trabalhar com sorvete do Paulo em eventos tipo rodeios e festas em geral tipo Oktoberfest. Loriberto também virou sócio de Paulo em uma distribuidora de leite que também deu errado. Enfim era um jeito diferente de demissão. Em tempo: Com o Loriberto vou ter uma grande amizade ainda. Ele e sua esposa vão preencher nossa solidão em Santa Catarina. Nós também iríamos preencher a deles.
Depois de dois anos trabalhando com Paulo, chegou a vez dele fazer uma proposta de trabalho para mim. Seríamos sócios de uma distribuidora de sorvetes na areia de Balneário Camboriu. Junto com isso mais três quiosques em frente à rede de Supermercados Vitórias. Só hoje eu me dou conta do grande negócio que ele me deu, mas na época eu achei que estava sendo demitido elegantemente. Começamos então a mudança para Balneário Camboriu. FIM DO V CAPITULO

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