NAS CURVAS DO ROCK (a história nunca contada, nascimento e vida SEBAS ROCK BAR)

19/09/2017

Capítulo IV

RECONHECENDO CURITIBA

 

Tínhamos comprado um sobrado em Curitiba. Uma das coisas que sempre me orgulharam na Capital foi nossa arquitetura. Acho muito modernos os estilos de construção. Lembram um pouco a Europa os padrões de nossos sobrados. Foi um achado e de certa maneira a compra dele diminuiu um pouco a nossa grande perda financeira em Santa Catarina. Tem três quartos, os dois de frente para a rua. Cada filho habitou um e o dos fundos com banheiro ficou para mim e a Nilza. Tinha uma boa sala, garagem para três carros e um ático enorme. Temos uma reserva de terreno no fundo que pertence às quatro casas. Evidentemente que eu e a Nilza, com nosso jeito dominador, já assumimos aquele quintal e plantamos várias árvores de frutas, pois não tinha nenhum aproveitamento aquele espaço. Só grama.
Eram aproximadamente sete horas da manhã e um bando de maitacas conversavam escandalosamente no fundo do terreno. Abri a janela curioso para ver os pássaros e qual minha surpresa: eram só duas aves. O ditado popular estava certo. Falavam como duas maitacas. Fiquei um instante ali olhando para aquelas aves verde cintilante, um verde maravilhoso. Cada vez que elas berravam eu agradecia ao Senhor por ter me acordado naquele dia com um canto tão maravilhoso. Logo os sabiás e pombas deram seu olhar da graça. Enfim comecei a reconhecer aquela nova Curitiba, pois quando fui embora para Santa Catarina, em 1989, era tudo diferente. O povo era ingênuo. As casas simples e as pessoas bem mais receptivas. Notei que o comportamento dos curitibanos tinha mudado um pouco. Tinham ganhado um orgulho em sua alma, não maior que seus corações, mas totalmente visível para os estrangeiros que estão chegando. Depois você se acostuma com isso. Aliás você passa a ser um curitibano.
Sozinho na peiteira da janela me veio a voz da Nilza na noite anterior, depois de me ver totalmente frustrado com as vendas das camisetas, quase que me autorizando a voltar para o ramo de bar. Aquela decisão não me deixou dormir à noite, pois o desafio estava feito: começar tudo de novo em uma cidade que parecia amistosa, mas que tinha deixado sua inocência no passado. Eu precisava descobrir através de meus parentes e conhecidos quem eram esses tais curitibanos. Quais suas necessidades? O que eles queriam? O que eu poderia dar?
Nos próximos dias eu e Nilza começamos uma jornada pelos bares de Curitiba. Precisávamos de informações. Saber quem frequentava esse tipo de ambiente, pois a palavra BAR na época que eu fui embora era totalmente marginal. Meu pai sempre me dizia: "Se um dia eu lhe pegar dentro de um bar vou lhe dar uma TUNDA. Arranco você de lá pelas orelhas, piá". Aquilo me impediu e me deixou longe daqueles lugares profanos por um tempo e talvez uma das minhas missões no dias de hoje seja tirar da cabeça dos cinquentões essa mentira maldita.
O primeiro lugar que fomos foi na Avenida Batel. Eu não sabia que ali era o point de Curitiba. Na minha época tinha o Bife Sujo e o Calamares, se não me engano, que aliás eu ia muito raramente. Estacionamos na Batel e fomos bem devagar vendo alguns bares da área. A rua era bem movimentada. Eu ficava imaginado o que aquele povo poderia consumir. Vi uma sala um pouco antes do Bar Sheridans, citei o nome aqui, mas na época eu nem fazia ideia do quanto esse bar iria transitar nos comentários de meus futuros clientes, amigos e eu. Tinha uma placa de aluga-se em uma sala maravilhosa, anotei o telefone e liguei. Seis mil e quinhentos reais por mês. Achei caro e na conversa com a Nilza combinamos que não iríamos mais fazer loucura, pois o aluguel da churrascaria em Itapema era de quatro mil e isso nos levou a ruína. Uma das coisas mais importantes em um negócio são os custos fixos, aqueles que vem todo mês independente se lotar ou não... se chover ou não. O aluguel é um fator de risco grande e uma vez que você entra nele adeus. Se der errado ele consome sua vida, seus bens e de seus amigos até o fim.
Descartado o Batel, começamos a percorrer os bares em geral, mas não tínhamos conhecimento nenhum de onde procurar e o que buscar. O tempo ia passando e cada dia eu ficava mais aflito. Nós saíamos à noite sem destino, mas a noite sempre parecia morta. No bairro Água Verde tinha alguns bares, mas super antigos e com certeza os aluguéis eram caríssimos. Nessa época tinha a maldição das lojas de carro. Em todas as esquinas tinha uma. Os caras pagavam qualquer quantia por um bom ponto. Os vendedores de carros lembravam muito os funkeiros cariocas, correntes de ouro no braço e no pescoço e uma camisa de marca com os botões abertos. Todos tinham BMW. Lembravam também cantores sertanejos pois esnobavam dinheiro. Eu sabia que aquilo iria acabar um dia, falei para meu irmão Silvio Sabatke e para meu amigo Elias, que mexiam com esse mercado. Avisei que o mercado estava totalmente inchado e que a bolha iria explodir. Não deu outra, o estouro foi tão grande que 80% das lojas fecharam.
Depois de procurar por muito tempo, resolvi dar uma volta ali no bairro mesmo com meu filho Julian. Por sorte fomos na praça Menonita bem numa terça feira. Aquilo estava lotado de gente andando sem direção. Tinha bares em toda volta dela com pessoas. Eu não sabia que esses locais tinham promoção na terça, mas para mim a leitura tinha sido boa.


No outro dia comecei a procura por um ponto perfeito. Aquilo me assustava, pois eu não tinha mais nome nem para comprar um caldo de cana. Não que eu tenha dado o cano em pessoas, mas tinha ficado devendo para o banco. Eu tinha dinheiro para pagar, mas era mais conveniente não pagar o banco e guardar o que eu tinha para começar um novo negócio. Mais tarde eu fiz um acerto com o banco, dividi minha dívida em várias parcelas sem juros. Eu sempre fui bom negociador com os bancos e nunca paguei os juros que eles queriam.
Tinha um terreno na Paulo Setúbal onde tem uma torre de telefone, mas conversando com imobiliária eles me falaram que era proibido abrir bar em toda a volta da Praça Menonitas. Depois de um tempo eu fui saber que em tempos atrás aquela praça tinha sido um point de jovens, que se reuniam aos domingos. É aquela velha história: onde tem gente e não tem polícia o tráfico toma conta e a encrenca começa. Falaram-me que houve muitos tiroteios e que alguns adolescentes foram mortos ali. Por isso a polícia colocou um posto avançado naquele local e proibiu a abertura de novos bares. Ninguém mais entra. Ninguém mais sai!
Como ali não dava, andei um pouco até a Waldemar Loureiro De campos. Passei a pé pelo posto de combustível da Paulo Setubal. Aquilo era uma bagunça de jovens, pois a lei que o proibia bebidas alcoólicas nos postos era muito nova e desrespeitada totalmente. Com o tempo e depois de muitas batidas conseguiram fechar o tal posto. O dono vendeu para um grupo de postos que requalificou o local. Todo mundo ganhou. Voltando ao assunto virei à direita e logo vi aquele centro comercial. Na sala da frente tinha uma placa de aluga-se. Entrei no centro comercial e fui tirar mais informações. Ao lado da sala pretendida tinha uma eletrônica de televisão e som, seguindo uma cabeleireira, depois uma assistência técnica de geladeiras, ao lado uma reforma e pintura de carros e a ultima sala uma moça que fazia convites de casamentos. Hoje dos antigos só o japonês utiliza a última sala com sua eletrônica. O lado positivo era o estacionamento, que não era enorme, mas tinha um. Confesso para vocês leitores que a coisa mais valiosa em qualquer ponto comercial em Curitiba é o estacionamento. Se eu tivesse um para cem carros, hoje o Sebas teria outro padrão e até teria mais lojas de uma possível franquia, mas enfim o que eu podia pagar naquele momento era aquele local.
Liguei para a imobiliária. O responsável se chamava Portuga. Até hoje negocio com ele. Perguntei o valor do aluguel e ele me falou que a sala estava fechada há dois anos e que por isso iria me cobrar apenas oitocentos reais por mês.


Fiquei empolgado. Fui em casa e trouxe a Nilza para ver o ponto. Ela viu e não gostou nem um pouco. A ideia dela era outra, mas como comentei anteriormente, os melhores pontos realmente estavam com os vendedores de carro. Fomos para casa e entramos em um impasse. Os piás eram muito crianças para ajudar a decidir sobre um assunto tão sério. Tinha que ser eu e a Nilza mesmo. Peguei o carro à noite e fui lá para a frente da sala. Fiquei ali olhando para ela e negociando com minha mente os pontos positivos e negativos do lugar. Por sorte a Rua Waldemar Loureiro de Campos estava sofrendo uma reurbanização. Estava ficando linda, com calçadas enormes e pista dupla. Essa rua sempre foi caída. Os comércios sempre foram desvalorizados pelos malditos anti-pós que os políticos botavam goela abaixo dos curitibanos. Fiquei ali por horas. Confesso que chorei um pouco. Eu estava fragilizado demais. Eu só tinha um tiro para voltar ao topo, para dar estabilidade novamente à minha família, mas como convencer a Nilza dessa vez, se outrora convenci para abrirmos uma churrascaria e quase perdemos tudo? Voltei pra casa e fiz a famosa cara de coitadinho, fiquei cabisbaixo pelos cantos. Eu não tinha onde mais procurar. Estava exausto com tudo aquilo. Meus irmãos e amigos todos me dizendo que abrir bar em Curitiba era loucura; que não tinha nada a ver com o litoral; que o povo era outro. Mas lógica me dizia para abrir um bar, pois todo mundo tinha um carro. Será que esse povo não teria dez reais para gastar no meu bar? Naquela mesma noite eu tive que enfrentar a Nilza. Depois de eu contar as qualidades do ponto consegui convencer que não tínhamos outra escolha. Ela apenas me pediu uma coisa: teríamos que mudar o nome do bar. Não poderia mais ser Sebas. No qual eu concordei, pois esse nome é até meio egoísta por se tratar do inicio do meu próprio nome.
No outro dia pedi a chave do imóvel e fomos conhecer. Era uma sala de dentista, o proprietário era um japonês que fazia acupuntura e que tinha passado a sala para a filha. Mais tarde conheci ela. Muito sensata, me disse que nunca gostou de odontologia.
A sala não era grande, mas como eu e Nilza temos visão, logo notei que o recuo lateral dava uma boa cozinha e a Nilza já deu a ideia de aproveitarmos o recuo da frente com um toldo. Com isso dobrávamos os setenta metros da sala original.
Fechamos o contrato. Como eu não tinha nome, pois estava na lista de devedor no banco, precisei da ajuda de uma irmã para alugar a sala. Precisei do nome do irmão da Nilza para a conta da luz e assim por diante.
Pronto! Já tínhamos o ponto. Agora é escolher o novo nome e o estilo que vai ser o bar.


Continua

Please reload

Rua Waldemar Loureiro Campos, 2632 Boqueirão Curitiba PR

SEBAS ROCK BAR

  • Facebook - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle